Pensamento soltos traduzidos em palavras.

Dia 02

Eu sinto que à noite é mais difícil. Talvez seja porquê era à noite nosso maior contato, nosso maior carinho. Entrei em casa depois de passar o dia inteiro fora e senti como se uma parte do meu lar estivesse faltando. Hoje acordei ouvindo-a chamar meu nome. Levantei sobressaltada e me decepcionei quando percebi que tinha se tratado apenas de um sonho. A decisão de ir embora foi minha, mas isso não me isenta de sofrer. Eu a amo. O vento trouxe seu perfume e eu ao fechar os olhos tentando eternizar aquele momento, chorei. Olho para o céu em busca de alguma resposta para as minhas perguntas, em busca de algum consolo. As pessoas não percebem, mas a solidão é subestimada. Queria gritar. Não sei o que vai ser do amanhã, mas hoje tá doendo.

Pensamento soltos traduzidos em palavras.

Dia 01

Hoje, efetivamente, é o primeiro dia sem ela.

Eu moro sozinha há quase um ano, mas só agora eu percebi o quanto aqui é silencioso e vazio. As paredes me ouvem, mas elas não conversam comigo. Elas não riem das minhas piadas, não me chamam de idiota, e não dizem que me amam. Fecho os meus olhos e seus olhos são tudo o que eu vejo, a risada dela ainda ecoa nos meus ouvidos, e o cheiro dela ainda está nos meus lençóis. Acordei e não tinha mensagem de bom dia, não vontade de levantar da cama. Os primeiros dias são os que mais dilaceram o coração. A noite demora a chegar e quando ela chega o sono não vem. Não sei o que vai ser do amanhã, mas hoje tá doendo.

Day by day.

Me perguntaram outro dia, se eu era feliz sozinha. Respondi só com um sorriso. (Idiotice!) Nessa vida me rendi a felicidade que é ter amigos. Sobretudo, do peito, para dividir a leveza da vida. Poderia então dizer – simplesmente – estou acompanhada. Por vários. Tenho amores de todos os tipos. Para todas as horas.

Day by day.

Sobre a minha avó

A vida corrida nos priva de tantas coisas simples e boas. Coisas que se findas, jamais regressarão. Dia desses enquanto minha avó me contava uma história sobre a qual eu não faço ideia do que se trata, vaguei em suas rugas e marcas. Percebi o tanto de tempo que eu estive fora e não acompanhei o teu passar dos anos. Tive medo.

Uma vez eu li que avós que criam seus netos deixam uma marca na alma. A minha avó me criou. E além dos seus olhos que carrego em mim, ela sempre estará comigo em meu coração.

Ela tem 65 anos. É velha, dolorida. Olhando velhas fotografias acredito que foi uma das moças mais bonitas do seu tempo.

Não sabe ler direito. Tem as mãos grossas, pés maltratados. Carregou na cabeça toneladas de lenha… baldes de água. Vê nascer o Sol todos os dias.

Contou-me histórias de aparições e lobisomens, velhas brigas de família, um crime que resultou em morte.

Trave da sua casa, lume da sua lareira – dezessete vezes engravidou, mas apenas cinco vezes deu a luz.

Não sabe nada do mundo. Não entende de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião.

Traz um legado de centenas de palavras práticas e um vocabulário peculiar.

E com isso viveu, e vai vivendo.

Sensibiliza-se com as catástrofes do mundo e também com os casos da rua. Tem grandes ódios por motivos que já não lembra, grandes dedicações que não levam a lugar nenhum.

Vive.

Para ela a palavra Vietnã é apenas um nome feio que não condiz com seu círculo que tem apenas alguns quarteirões de raio.

Da fome conhece algumas coisas. Viveu na pele os efeitos de tamanho inimigo que não deixa que o adversário tenha forças para se defender.

Será que isso ela me contou ou eu sonhei que me contou?

Leva consigo o seu pequeno casulo de interesses. E no entanto, tem os olhos claros e, de certa forma, é alegre. Teu sorriso é como um arco-íris de cores. Como ela não conheço ninguém.

Fico diante dela e não entendo. Sou da sua carne e do seu sangue, mas não entendo.

Veio a esse mundo, mas não procurou saber o que é o mundo.

Chegou ao fim da vida, e o mundo ainda é para ela, o que era quando ela nasceu. Uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da sua herança. Quinhentas palavras e um quintal que em cinco minutos se dá a volta.

Aperto sua mão cheia de calos, passo minha mão no seu rosto enrugado e pelos teus cabelos que deviam ser brancos, mas que ela teima em pintar, e continuo a não entender.

Foi muito bela, eu disse. E eu bem vejo que tem certa 
inteligência.

Por que foi então que te roubaram o mundo?

Mas disto talvez entenda eu, e até me proporia a te dizer o como, o porquê e o como se soubesse escolher das minhas inúmeras palavras aquelas que te fizessem compreender.

Mas não vale a pena.

O mundo continuará sem ela… e sem mim.

Não teremos dito uma a outra o que mais importava. Não teremos, realmente?

Eu não terei te dado, porque minhas palavras não são as suas, o mundo que a ela era devido.

Fico então com esta culpa da qual ela não me acusa, e isso ainda é pior.

Mas porquê, vó?

Por que senta na sua varanda e olha para o céu estrelado e imenso se dele nada sabe e por ele nunca viajará? Olha ara o silencio da imensidão e diz com a tranquila serenidade dos seus sessenta e cinco anos e o fogo da adolescência nunca perdida: O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer.

O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de te perder.

E é isso que eu não entendo.

Mas a culpa não é dela.

Pensamento soltos traduzidos em palavras.

Breve retorno

Estive ausente. Encontrei um lar nos braços de uma garota que passou a ser a minha vida. Vivi um sonho. Estava feliz. Mas obviamente tudo tem que desandar um pouco ao longo do caminho. Não, não foi um término, mas fomos separadas. E talvez a dor de não ter ninguém por não conseguir querer alguém, seja infinitamente inferior a não ter quem se quer. Nós não conhecemos mesmo os nossos sentimento e menos ainda nós mesmos até que somos colocados a prova. Farei dessas linhas o meu consolo, e por aqui estarei. Só não sei ainda por quanto tempo. 

Day by day.

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Hoje me submeti a uma entrevista para iniciar a caminhada rumo a um dos muitos projetos que eu tenho em mente. A entrevista foi feita por duas moças, que iriam fazer peguntas pontuais, esperava eu. Assim que entrei na sala, havia uma moça sozinha, de pernas cruzadas, com um prancheta na mão que sorriu ao me ver entrar.
 
Antes que eu pudesse me ajeitar na cadeira, fui surpreendida com um “Quem é você?”
 
Prontamente respondi:
 
– Sandrelly, auxiliar de escritório…
 
Antes mesmo que eu pudesse concluir qualquer possível raciocínio sobre quem eu acho que sou, fui surpreendida:
 
– Não! Quero saber quem você é, não o que você faz.
– Nossa é muito difícil responder essa pergunta, não sei se confio em você a ponto de te mostrar quem eu sou.
– Você não confia em mim ou não se conhece tão bem a ponto de me mostrar quem você é?
 
Eu me senti apreensiva. Era uma conversa ou uma consulta com o psicólogo? Pensei um pouco e respondi:
 
– Eu escrevo.
 
Meu interlocutor olhou-me com uma cara de “todo mundo escreve, minha prima de 5 anos escreve”.
 
– Não entendi.
– Eu escrevo. Tipo, escrevo. Sento, penso, sinto e escrevo.
 
Quanto mais eu dizia “eu escrevo” maior era a confusão que se instalava em seu rosto. Então, eu abri meu notebook, mostrei-lhes alguns textos, umas frases soltas, abri meu blog, e depois de um tempo parada de frente pro computador, ela me olhou com os olhos marejados e me deu um abraço.
 
A segundo moça entrou na sala, sentou na cadeira a minha frente, pegou sua prancheta, e disse:
 
– Vamos lá, Sandrelly, quem é você?
 
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a moça que estava sentada ao meu lado, ainda enxugando um pouco de suas lágrimas, disse:
 
– Ela escreve.
 
E então eu completei:
 
– E tem gente que lê!
Pensamento soltos traduzidos em palavras.

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Eu perdoei todas as pessoas que de alguma forma me fizeram mal, perdoei mais do que elas mereciam serem perdoadas. Perdoei mesmo sem um pedido de perdão. O fiz por vontade e necessidade do meu coração, ele pedia paz. Esqueci as mágoas, os danos, as dores. Dei para elas a maior de todas as vinganças, os meus mais sinceros desejos de felicidade.

Nesses dias, descobri que uma certa pessoa, do qual eu nunca desejei mal algum, pelo contrário, sempre fui gente boa demais, em uma certa ocasião falou mal de mim ao extremo, sabe o que eu fiz? Relevei, na verdade nem perdi meu tempo, simplesmente não quis saber, sai e deixei para lá.

Não sou a melhor pessoa do mundo, é verdade, eu sou péssima. Porém tenho acreditado cegamente na lei do retorno, acho mesmo que tudo que vai, volta. Para toda ação a vida te trás uma reação. Por isso eu ando mesmo desejando o melhor para todos, quero um futuro livre, lindo, brilhante e repleto de assas coloridas.

Quanto mais o tempo passa, mais a minha lista de amigos diminuí, em menos pessoas confio e conto nos dedos as que amo de verdade.

Essa semana em uma reunião com uma cliente ela sorriu quando eu disse: – Vou fazer uma lista de pessoas que devem comparecer ao meu enterro. Só é para ir quem for convidado. Ela sem entender perguntou: Por quê? Eu respondi: – Na vida, você só pode compartilhar as alegrias e as dores sinceras, com quem foi verdadeiramente leal.

Não sei se é a chegada da terceira década, se eu estou mais chata ou se as crises de tristezas andam mais efetivas, mas me tornei uma pessoa extremamente sincera, realista e calma.

Se me permite uma dica, faça o mesmo que eu, se liberte de qualquer mal, ódio, rancor e sentimentos ruins. Deixe sua alma livre, pare de desejar o pior, afinal, isso e falar mal do próximo não vai tornar sua vida mais leve.

Boa prática.