Day by day.

Me perguntaram outro dia, se eu era feliz sozinha. Respondi só com um sorriso. (Idiotice!) Nessa vida me rendi a felicidade que é ter amigos. Sobretudo, do peito, para dividir a leveza da vida. Poderia então dizer – simplesmente – estou acompanhada. Por vários. Tenho amores de todos os tipos. Para todas as horas.

Day by day.

Sobre a minha avó

A vida corrida nos priva de tantas coisas simples e boas. Coisas que se findas, jamais regressarão. Dia desses enquanto minha avó me contava uma história sobre a qual eu não faço ideia do que se trata, vaguei em suas rugas e marcas. Percebi o tanto de tempo que eu estive fora e não acompanhei o teu passar dos anos. Tive medo.

Uma vez eu li que avós que criam seus netos deixam uma marca na alma. A minha avó me criou. E além dos seus olhos que carrego em mim, ela sempre estará comigo em meu coração.

Ela tem 65 anos. É velha, dolorida. Olhando velhas fotografias acredito que foi uma das moças mais bonitas do seu tempo.

Não sabe ler direito. Tem as mãos grossas, pés maltratados. Carregou na cabeça toneladas de lenha… baldes de água. Vê nascer o Sol todos os dias.

Contou-me histórias de aparições e lobisomens, velhas brigas de família, um crime que resultou em morte.

Trave da sua casa, lume da sua lareira – dezessete vezes engravidou, mas apenas cinco vezes deu a luz.

Não sabe nada do mundo. Não entende de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião.

Traz um legado de centenas de palavras práticas e um vocabulário peculiar.

E com isso viveu, e vai vivendo.

Sensibiliza-se com as catástrofes do mundo e também com os casos da rua. Tem grandes ódios por motivos que já não lembra, grandes dedicações que não levam a lugar nenhum.

Vive.

Para ela a palavra Vietnã é apenas um nome feio que não condiz com seu círculo que tem apenas alguns quarteirões de raio.

Da fome conhece algumas coisas. Viveu na pele os efeitos de tamanho inimigo que não deixa que o adversário tenha forças para se defender.

Será que isso ela me contou ou eu sonhei que me contou?

Leva consigo o seu pequeno casulo de interesses. E no entanto, tem os olhos claros e, de certa forma, é alegre. Teu sorriso é como um arco-íris de cores. Como ela não conheço ninguém.

Fico diante dela e não entendo. Sou da sua carne e do seu sangue, mas não entendo.

Veio a esse mundo, mas não procurou saber o que é o mundo.

Chegou ao fim da vida, e o mundo ainda é para ela, o que era quando ela nasceu. Uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da sua herança. Quinhentas palavras e um quintal que em cinco minutos se dá a volta.

Aperto sua mão cheia de calos, passo minha mão no seu rosto enrugado e pelos teus cabelos que deviam ser brancos, mas que ela teima em pintar, e continuo a não entender.

Foi muito bela, eu disse. E eu bem vejo que tem certa 
inteligência.

Por que foi então que te roubaram o mundo?

Mas disto talvez entenda eu, e até me proporia a te dizer o como, o porquê e o como se soubesse escolher das minhas inúmeras palavras aquelas que te fizessem compreender.

Mas não vale a pena.

O mundo continuará sem ela… e sem mim.

Não teremos dito uma a outra o que mais importava. Não teremos, realmente?

Eu não terei te dado, porque minhas palavras não são as suas, o mundo que a ela era devido.

Fico então com esta culpa da qual ela não me acusa, e isso ainda é pior.

Mas porquê, vó?

Por que senta na sua varanda e olha para o céu estrelado e imenso se dele nada sabe e por ele nunca viajará? Olha ara o silencio da imensidão e diz com a tranquila serenidade dos seus sessenta e cinco anos e o fogo da adolescência nunca perdida: O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer.

O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de te perder.

E é isso que eu não entendo.

Mas a culpa não é dela.

Day by day.

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Hoje me submeti a uma entrevista para iniciar a caminhada rumo a um dos muitos projetos que eu tenho em mente. A entrevista foi feita por duas moças, que iriam fazer peguntas pontuais, esperava eu. Assim que entrei na sala, havia uma moça sozinha, de pernas cruzadas, com um prancheta na mão que sorriu ao me ver entrar.
 
Antes que eu pudesse me ajeitar na cadeira, fui surpreendida com um “Quem é você?”
 
Prontamente respondi:
 
– Sandrelly, auxiliar de escritório…
 
Antes mesmo que eu pudesse concluir qualquer possível raciocínio sobre quem eu acho que sou, fui surpreendida:
 
– Não! Quero saber quem você é, não o que você faz.
– Nossa é muito difícil responder essa pergunta, não sei se confio em você a ponto de te mostrar quem eu sou.
– Você não confia em mim ou não se conhece tão bem a ponto de me mostrar quem você é?
 
Eu me senti apreensiva. Era uma conversa ou uma consulta com o psicólogo? Pensei um pouco e respondi:
 
– Eu escrevo.
 
Meu interlocutor olhou-me com uma cara de “todo mundo escreve, minha prima de 5 anos escreve”.
 
– Não entendi.
– Eu escrevo. Tipo, escrevo. Sento, penso, sinto e escrevo.
 
Quanto mais eu dizia “eu escrevo” maior era a confusão que se instalava em seu rosto. Então, eu abri meu notebook, mostrei-lhes alguns textos, umas frases soltas, abri meu blog, e depois de um tempo parada de frente pro computador, ela me olhou com os olhos marejados e me deu um abraço.
 
A segundo moça entrou na sala, sentou na cadeira a minha frente, pegou sua prancheta, e disse:
 
– Vamos lá, Sandrelly, quem é você?
 
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a moça que estava sentada ao meu lado, ainda enxugando um pouco de suas lágrimas, disse:
 
– Ela escreve.
 
E então eu completei:
 
– E tem gente que lê!
Day by day.

Saborear um bom café é uma declaração de amor a nós mesmos.

Para os bons amantes do café como eu, qualquer hora é hora. Mas tem algo melhor do que um café fresquinho nesse tempo chuvoso?

De todos os chamados que a cozinha me faz, a hora do café quentinho, exalando cheiro de pausa e cuidado, é a que mais me atrai.

Herança da minha infância, do tempo em que acompanhava minha bisavó nos afazeres de casa quando ia passar as férias por lá. A hora do lanche, com pão molhado no café fumegante, era o tempo que ela conseguia olhar para si mesma e respirar.
Era ali, naqueles instantes diante da mesa posta com bolo de farinha e ovos, pão francês e café cheiroso que ela desconstruía a mãe enérgica, a esposa generosa e a dona de casa prestativa.
Era ali que eu, atenta em minha meninice, aprendia a cuidar mais de mim.

Eu gostava do sabor e do ritual, mas o que me dava mais alegria era ver aquela mulher se despindo da pressa rotineira e curtindo a própria companhia. Em sua simplicidade, ela me ensinava a buscar momentos de calmaria e consolo no meio do caos diário.

O ato de sentar-se à mesa para saborear um bom café é uma declaração de amor que fazemos a nós mesmos. É uma forma de nos acariciarmos e aprovarmos a nossa própria companhia, sem precisar de mais ninguém.

Preste atenção à sua volta. Estão todos tão ocupados, tão distantes de si mesmos, correndo tanto, exercendo papéis demais, cumprindo prazos e exigências demais… e pouco respeitando a si mesmos. É hora de colocar a toalha na mesa e servir um bom café. Hora de partir o pão com a mão e mergulhar nos vapores da xícara acolhedora. Hora de respirar fundo e mastigar devagar. Hora de perceber a urgência de desconstruir-se para enfim ser mais feliz.

A vida necessita de pausas. De momentos em que o bule cheio de café fresquinho nos convida a sentar e enfim desacelerar. De ocasiões em que é necessário colocar uma toalha bordada na mesa e convidar a nós mesmos para o chá. De porcelana bonita nos chamando para jantar. De sobremesa simples adoçando nosso paladar.

É preciso aprender a se gostar. Aprender a descosturar as bainhas que nos atam ao que é supérfluo e costurar novos remendos, que nos autorizam uma existência de respeito e amor-próprio.

Já não cabem mais desculpas. A água na fervura anuncia que é hora de coar o café. As nuvens escuras apressam a retirada das roupas no varal. E o cansaço pelo descuido consigo mesmo diz que é hora de desacelerar e se desconstruir.

É momento de acenar em despedida àquilo que nos ensinaram que era primordial mas nem sempre nos agrada. Ao excesso de zelo, à vontade de controlar tudo, à ansiedade de dar conta de todas as funções. Ninguém nos contou que não é possível agradar a todos, e nessa busca incansável pela perfeição, nos perdemos de nós mesmos.

É chegada a hora de retornar. De tornar possível o amparo às incompletudes, insignificâncias e imperfeições. De aceitar os próprios limites e afrouxar a competência. De sentar-se à mesa e servir-se com carinho um bom café. De pausar a tarde, os pensamentos, cobranças e exigências. De enfim perceber que a vida pode ser contada de uma forma mais simples, mais silenciosa e bem mais amorosa…

Day by day. · Pensamento soltos traduzidos em palavras.

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Mais uma noite que não consigo dormir muito bem. Os motivos foram diferentes desta vez, mas não menos assustadores.

Me pus a pensar sobre o amor. Eu amo pensar sobre o amor. Divagar sobre ele.

O amor é aquele carinha da sua escola, da primeira série, que te xingava de um milhão de palavrões infantis só porque você tinha os dentes da frente abertos. O amor é aquela caixa de morangos que parecem estar maravilhosos e, quando você abre, descobre que todos os que estavam no fundo estão podres. O amor é aquela seção de calças de cintura alta perfeitas, tamanho 32, que quase não cabem nos manequins.

O amor não é justo. E, talvez, o problema resida não no sentimento em si, e sim no timing.

Duas pessoas, quando se encontram, têm a possibilidade mínima de se encontrarem no mesmo estágio de vida. Não importa se você é magra, loira e tem os olhos azuis, se a outra pessoa não tá a fim de namorar agora. Não importa quantos gominhos você tenha na sua barriga malhadíssima, se o outro te acha um saco.

Conheci muita gente e me apaixonei por cada uma delas – paixão é sim, uma forma mínima de amar, por menor que seja. Conheci gente demais em tempos errados demais. Hoje, percebo o quanto estive errada em cultivar mais expectativas do que a mim mesma.

Descobrir-se é a primeira etapa do processo “amar”: amar a si mesmo. Amar quem você é, na essência. Decidi aos nove anos de idade que iria ser advogada. Hoje, percebo o quanto me envergo em caminhos diferentes e alternativos, por poder, livremente, ser o que sou.

Cada um de nós deveria, antes de tudo, descobrir-se. Abrir-se ao mundo. Há muito a ser explorado, tanto em sua alma, quanto em seu bairro – imagina o quanto pode haver no mundo inteiro, então.

E, o amor (ok, papo de auto-ajuda, mas que jamais deixará de ser verdade) só é possível quando descobrimos que o outro está ali para somar, e não completar.

Não podemos enxergar no outro qualidades que sentimos não existir em nós mesmos – o que cheira a inveja – e muito menos esperar que o outro nos trate como uma mãe ou um pai.

Carência demais é doença. Agarrar a primeira coisa que se vê só mostra o quão fraco e necessitado você se torna a cada segundo em que está sozinho. Desejar a companhia de alguém é uma coisa; imaginar o outro como um escravo particular para curar suas inseguranças é outra

E é por isso, e por tudo que ainda posso ser, que descobri – e, por mais incrível que possa parecer, me apaixonei por esta possibilidade – que as pessoas nunca estão pronta pra amar. E que por mais doloroso que isso possa parecer, não é necessário desesperar-se.

Sair da zona de conforto traz tanta, mas tanta lucidez que voltar para a caverna torna-se impossível – obrigada, Platão.

Construa-se com passos leves, calmos e muito – mas muito mesmo – despreocupados. E acho que esse é o melhor conselho que poderei dar a alguém, quando me perguntarem sobre felicidade: Antes de qualquer coisa vá ser feliz com você mesmo. A única coisa que te merece é o mundo – não somos prêmios particulares, nem bônus de celular, nem garantia de felicidade, nem números da Telesena.

Somos indivíduos que, querendo ou não, doendo ou não, nascemos e morremos sozinhos. Encontrar alguém que, ao invés de nos roubar, queira nos acompanhar nessa jornada, é sua árdua missão particular – recebe-se o que se é refletido.

Se atrás de você só tem gente louca, quem está de ponta-cabeça é você (nota particular).

Descubra-se. Valorize-se em todos os seus trejeitos. Use algo mais curto (ou mais comprido). Dance. Viaje. E, quando, por poesia – por descuido não, por favor! -, alguém quiser ficar, que seja para acrescentar.

Porque o amor não é justo. Mas ele há de acontecer pra você, um dia, do nada, como aconteceu pra mim.

Day by day.

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Respire. Olhe para o céu. Ainda há muito ar puro e seus pulmões precisam dele para todas as coisas. Inspire todo o ar que você pude suportar, feche os olhos e sinta como é bom esse sentimento de plenitude. E, se tiver que jogar fora as coisas que não te servem mais, expire e guarde as boas lembranças dos segundos de um dia que teve tudo (ou quase tudo) para ser completo. Mas calma. Entenda que esse é apenas no primeiro passo de uma caminhada que acabou de começar. É o primeiro dia do primeiro ano do resto da sua vida. E tudo bem que já passou muito tempo, mas sempre haverá amanhã. E sempre haverá o céu e ar puro para respirar.

Day by day.

Quando alguém vai embora.

É estranho quando alguém vai embora sem avisar. As coisas ficam tão quietas como se esperassem uma explicação. E a gente não tem o que falar porque ainda não entendeu nada. Não tem nem coragem de trancar a porta porque aquela pessoa tinha hora certa pra chegar. Depois de um tempo, a gente quer mudar a cama de lugar, colocar uma cortina rendada e alterar a cor da fachada, mas o dia é sempre cinza quando a gente anoitece por dentro. É muito estranha essa sensação de ficar sem lugar dentro da própria casa porque nosso aconchego era no peito de uma pessoa que não mora mais ali. E a gente se dá conta que está desabrigado, empunhando uma saudade que não passa, aguentando um silêncio que não se quebra com a cor da voz daquela pessoa. A ausência ocupa muito espaço. E a tristeza resvala nas coisas que a gente lembra, e a gente se sente tão ferido sem saber qual é a parte que dói mais. A gente tira as coisas do lugar pra ver se as coisas mudam, mas elas continuam gritando o nome daquela pessoa que foi embora. E a gente chora, quer ir embora também pra ver se encontra na rua àquela pessoa, que sempre esteve tão do lado de dentro e agora é como se a gente montasse guarda pra ver se acha algum vestígio, alguma partícula que tenha o cheiro e a voz, que aos poucos vai se dispersando na poeira dos dias. É muito estranho quando alguém vai embora sem avisar e a gente olha aquela roupa mais estimada e pensa que ali dentro vivia uma pessoa feliz. E a gente veste aquela roupa pra tentar se aproximar do cheiro daquela pele, mas é só uma camada de pano cheia de linhas soltas, é só o invólucro da ausência que a gente tenta abraçar pra ver se pega de novo aqueles traços, aquele jeito de olhar, aquelas manias que a gente reclamava e que agora sente saudade até mesmo da toalha molhada em cima da cama, mas, a gente não tem mais aquela toalha. É muito estranho quando alguém “joga a toalha” e vai embora sem avisar porque a gente sempre espera resolver tudo numa conversa antes de deitar e planeja fazer alguma surpresa para o jantar pra ver se fica tudo bem, mas, de repente, aparece essa argola de angústia rodeando o pescoço porque não se sabe se a pessoa perdeu mesmo o rumo de casa ou não quer mais voltar. Mas é estranho porque talvez ela tenha avisado num gesto qualquer, que a gente não tenha interpretado como um sinal de despedida, mas era a última vez, e aí, a gente rebobina as cenas, e chora de novo como se fizesse um “remake” de um filme que já acabou. É estranho… é muito estranho.