(+1) noite de insônia

Sobre a mesinha, ao lado da pilha de livros,  alguma comida, bolinhas de papel. Recostada na mesa, o corpo, na ponta do corpo a mão, na ponta da mão os dedos avançando até a garrafa. Vazia. Olha o copo e toma o último gole. Pela janela aberta, o silêncio da noite impresso num céu sem cor. Na rua deserta de rumores: madrugada. Abre um livro. Os dedos circundam as letras, a unha do indicador acariciam as letras como se fossem carne. Carne desconhecida, sem interesse. Um pouco fria. Letras que não dizem nada, gesto cansado, dedos que voltam à posição anterior mas, inquietos, sobem pela camisa, libertam o último botão do short. Dedos que entram no peito, passam na pele, alcançando o pescoço. Do quarto ao lado o vento rouba uma música do rádio e a traz para junto de seus ouvidos. Um samba. Gosta desse samba, pensa distraída, liga o rádio, coincidência, exatinho na mesma estação. Dedos agora acompanham o ritmo batendo na colcha, mas o pano não faz som, é preciso bater na mesinha, madeira sambando, a melodia escorrega devagar. A voz acompanha baixinho a letra melancólica, amor, flor. Pensa que se estivesse na casa dos pais, a mãe viria reclamar, nunca viu tanto relaxamento nem tanta preguiça num corpo só. Vinte e cinco anos e de um e sessenta e seis de solidão.  Desliza a mão pela parede, fechando os olhos, o branco deixa de ferir, as granulações miúdas da parede parecem prometer alguma coisa. Mexe os pés sem meias de encontro à colcha, a consistência fria, um pouco viscosa, coloca arrepios na pele. Abre os olhos e encontra o branco da parede, o azul da colcha: o dia amanhecendo na moldura da janela.  Reduzido a ele mesmo, miseravelmente, sobre a cama. Nem sono tem. Já fechou os olhos, tentou dormir, mas tanta preguiça que nem sono tem. Desliga o rádio. Reduzida a ela mesma, miseravelmente, sobre a cama. Obrigação de sentir, se possível, chorar. Larga de novo o corpo sobre as cobertas. Conversar com alguém? Não. Não iriam entender que vezenquando a gente fica triste sem motivo, ou pior ainda, sem saber sequer se está mesmo triste. Mania de esperar que as coisas sejam um jeito determinado, por isso a gente se decepciona e sofre. Na mesa, os livros oferecem consolo. Vontade de ler um troço decente. Mas é preciso passar por uma porção de besteiras até chegar ao que interessa. Vontade de ter um pensamento bem profundo, desses que fazem a gente se surpreender que tenham saído da nossa cabeça mesmo, naquela modéstia que só se tem quando se está distraída. Desses pensamentos que nas revistas em quadrinhos aparecem em forma de lâmpada sobre a cabeça do cara. Mas o quê? Sobre a vida, um combate que aos fracos abate e aos fortes e aos bravos só pode exaltar? Sobre o amor, que é isso que você está vendo hoje, beija amanhã, não beija depois de amanhã, é domingo e segunda feira ninguém sabe o que será? Ou sobre a cultura e a civilização, elas que se danem contanto que me deixem ficar na minha? Tudo já foi pensado: vida, amor, cultura, civilização, liberdade, anticoncepcionais, comunismo, esterilização na Amazônia, exploração das potências estrangeiras, mais que nunca é preciso cantar, guerra fria e vem quente que eu estou fervendo. Tudo a mesma merda. Pudesse abrir a cabeça, tirar tudo para fora, arrumar direitinho como quem arruma uma gaveta. Tomar um banho de chuveiro por dentro. Era um metro e sessenta e seis, vinte e cinco anos. Nesse amontoado de características. Encosta o corpo na cama, a mão passando de leve na colcha, o rosto na parede que a acolhe com ou sem o compromisso de sua impessoalidade, os pés inquietos e de leve, de leve começa a chorar.

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