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— Talvez a gente seja feito de fechaduras. – ela pontuou depois de alguns instantes calada.

A voz suave sempre agravada aos ouvidos, mas os pensamentos eram muito mais difíceis de decifrar do que aparentava. Ele encarou-a confuso, buscando mergulhar nos olhos que não eram da cor do mar, mas ainda assim pareciam ter a profundidade de um oceano.

— O que quer dizer? – perguntou por fim.
— Exatamente o que disse. – a frase poderia soar grosseira para qualquer um, mas ele se acostumara com suas expressões, conhecia-as sem precisar entendê-las. – Somos feitos de fechaduras, como uma casa em que você precisa atravessar várias portas para chegar ao sótão, só que para alguns as portas estão trancadas.
— Não seria mais como um cofre?
— Poderia ser, mas os cofres geralmente guardam coisas de valor. Já os sótãos escondem aquilo que tentamos esquecer ou não vemos mais utilidade. Acho que no caso das pessoas, é só o que queremos esquecer.
— Ou esconder.
— A gente sempre esconde o que quer esquecer.
— Mas nem sempre esquecemos o que queremos esconder.

Ela virou o rosto. Tirando-o daquele mar negro que era seu olhar. Escondendo o que quer que houvesse lá no fundo.

— Tem razão.
— Acho que li em algum lugar algo sobre isso. Sobre segredos escondidos no sótão da alma.
— Eu tenho certeza que li. Na época lembro que não tinha entendido, mas pensando melhor hoje vejo que o autor tinha razão.

Ela parou, mas ele apenas esperou por uma continuação. Imaginando que o silêncio seria um incentivo.

— Sabe, a gente pode trancar nossos segredos no sótão da alma, mas isso não quer dizer que ninguém nunca vai descobri-los. Quero dizer, se somos como uma casa e nossa alma é nossa propriedade, nós temos todas as chaves, não temos? Podemos abrir as portas uma a uma e mostrar o sótão para algum visitante.
— Mas às vezes a gente perde as chaves da própria casa.
— Não chegamos a perder, só esquecemos onde estão guardadas.
— Exatamente. Nesse caso, a casa continua trancada.
— Até você encontrar as chaves. Geralmente 

a gente esquece onde guarda as coisas que nunca usa. Quero dizer, se a gente nunca destranca pra ninguém, fica cada vez mais difícil conseguir se abrir pra alguém.

Foi a vez dele ficar sem resposta. Sabia que era sua vez de continuar, sempre sabia quando ela terminava. A garota tinha razão, como costumava ter, talvez aquele fosse o problema de trancar tanto a casa.

— A gente pode acabar esquecendo como levar os visitantes até o sótão.

— Não é esquecer. Podemos até ter a intenção, mas não sabemos mais como chegar até lá.

— Mas o trecho, me lembrei dele, era seguido por “esse é o meu”. Até o autor revelava os segredos da personagem.

— Eu não disse que nunca revelamos. Pelo contrário.
— Já descobriu como chegar ao sótão quando se perdeu as chaves?

Ela hesitou. Sabia a resposta, mas não tinha certeza se estava pronta para ela.

— Talvez às vezes alguém passe forçando as portas. Martelando os trincos ou quebrando a madeira.
— Mas aí a casa vai ficar marcada pra sempre.
— Exatamente.

O garoto puxou o rosto dela de volta, buscando naquele olhar o sentido de toda aquela conversa.

— Tem outra opção. – pontuou por fim.
— Qual? – a pergunta dela foi recheada por uma súplica.
— Às vezes a gente faz uma faxina ou alguma mudança, sabe? Quando a gente limpa tudo e sai empacotando as coisas, sempre achamos coisas perdidas nessas situações. A gente pode achar as chaves também.
— Mas isso pode demorar anos para acontecer.
— E desde quando chegar ao sótão de qualquer um acontece de forma rápida? O importante é que uma hora a chave aparece.
— Tem razão. Se o visitante esperar, uma hora ele chega ao sótão.”

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